Um olhar do ILACE sobre o cenário político - I

Carência de estratégia nos partidos

Por desconhecerem o que seja, os partidos políticos demonstram uma inabalável inapetência para aprender estratégia.

Não há por que nos surpreendermos com tal constatação, já que essa "álgebra do pensar" é desconhecida e sequer avaliada pelos demais setores da sociedade.

O que é estratégia

Pena que para dizer o que é estratégia tenha-se que começar por dizer o que não é, devido ao uso desprofissional ou ingênuo que se tem feito desse termo. Para começar a limpar o entendimento, cabe destacar que qualquer tática, fórmula ou proposta subjetiva avessa à crítica não se torna estratégia só porque alguém a apelida como tal.

A escolha da estratégia por uma instituição ou empresa é uma resolução sistêmica, individual ou em grupo. Os integrantes da identidade começam por buscar clareza quanto à natureza da intervenção que desejam. Em seguida, processam todos os passos do sistema resolutório. O resultado não é uma bíblia petrificada, mas uma bússola para a navegação. Não é aquele trambolho verbal que se registra em cartório.

Estratégia não se destina a qualquer enfrentamento, mas a intervenções ou empreendimentos que solicitem a inteligência como arma decisiva. Por isso, é considerada "a arte para vencer o invencível".

Estratégia é para a guerra. Para a batalha, a tática. Enquanto se repetir as operações táticas como suficientes em um empreendimento, sequer se consegue pensar estrategicamente.

Estratégia é a álgebra de um jogo em que com freqüência o próprio tabuleiro também se move e, portanto, não cabe ser jogado apenas com o pensar linear e seqüencial, por melhor que este esteja.

A estratégia se expressa em procedimentos mentais, mas depende de atitudes no pensar, sem as quais tais procedimentos não acontecem.

A estratégia e os partidos políticos no Brasil

A partir da percepção de Clausevitz - "a guerra é uma extensão da política por outros meios" -, entende-se que a estratégia integra e dá sentido à arte do pensar político.

Mas os meios partidários no País, pelas mais variadas premissas, resistem a esse entendimento. Em geral, confunde-se estratégia com marketing, que deveria ser uma tática dentro da estratégia. Talvez por rejeitar essa percepção, é que há alguns anos Marilena Chauí clamou que estaria havendo "estratégia demais" na política.

Infelizmente, não há nenhuma. Exemplifiquemos com o PSDB e o PT.

Se alguém consultar os jornais dos primeiros anos do PSDB, não reconhecerá a mesma agremiação de hoje. Aliás, há quem afirme estar difícil distinguir o atual PSDB do seu aliado PFL. Atribuir as mudanças de identidade ocorridas nesse partido aos ventos da realidade (os embates, a emoliência do poder, a perda de próceres como Mário Covas, as necessidades de negociar), é um diagnóstico que deixa de considerar a estratégia como uma bússola permanente.

Semelhantemente, se alguém consultar os tempos do mais que simbólico Carlito Maia, também não reconhecerá o PT de hoje. Esse partido, que por alguns anos parecia um "partido de quadros", rico em espontaneidade, parece não ter sabido transitar para um "partido de massa", certamente porque não havia processado uma estratégia. O "inferno" que lhe vem sendo presenteado pelas tropas adversárias resultou de não ter feito valer sua própria força e oportunidade no ano de 2003, quando o campo de batalha lhe era propício. Não usou sua vantagem porque não a percebeu; e não percebeu porque não processava uma estratégia que, precisamos repetir?, não tinha.

Devido ao nível comadresco das análises dos botecos e da internet - "qualidade" de pensar derivada da grande mídia -, cabe prevenir que atribuir esses exemplos de miopia estratégica a pessoas e pecados morais é fugir da raia. O pessoal dos círculos políticos nasce na mesma água que abastece os outros círculos: negócios, profissões, esportes, escolas, religiões, mídia.

Não destacamos esses dois partidos por desconsideração para com os demais. Foi só para exemplificar como dois contendores do momento pagam alguns preços por não terem estratégia. E não pretendemos ter revelado "verdades", mas apenas haver dado uma amostra de alguns percursos mentais faltantes aos partidos e a outros palcos sociais.

O pensar estratégico é uma necessidade nacional. Vale olhar todos os palcos sociais com urgência.

José Leão de Carvalho

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