Está entrando nos cinemas esse filme que trabalha uma temática muito nossa — a valência existencial ou, com licença dos psicanalistas, a “pulsão” do protagonismo. Trata-se de um documentário que mostra como as escolas públicas e privadas, tanto as de periferia como as de áreas nobres, não abrem condições para que os alunos se percebam “válidos e valiosos” no mundo. (Veja aqui um trailer do filme.)
À primeira vista, é um filme sobre como o ambiente das escolas e o processo de educação-ensino facilitam ou não a aprendizagem. Sim, trata de tudo isso e o faz brilhantemente. Mas a câmera do diretor, João Jardim, não esteve pasma e passiva e, assim, mostra-nos o prejuízo mais profundo e duradouro que a educação-ensino causa a milhões de vidas: retira-lhes a possibilidade de se descobrirem protagonistas.
Aliás, essa é uma tarefa que vai além da escola: facilitar não só aos estudantes, mas a todos os cidadãos, se enxergarem como “válidos e valiosos”. Para quem olha o futuro como o lugar onde temos de sobreviver, é a tarefa de todos os ambientes e instituições.

Já pensou se a mídia (ou parte dela) passar a entender seus “consumidores” como interlocutores e, assim, os valorizar? Se, além de apontar dificuldades do País, mostrar também os avanços e oportunidades?
E se alguém ajudar os empresários a repensar seus negócios e produtos? Taxa de juros e crédito mais fáceis são de fato importantes, mas não ativam inteligências que não se percebam protagonistas, ou seja, destinadas a mudar a realidade. Imagine só se a FIESP e o BNDES, por exemplo, além de pensarem nas empresas como expressões do “discurso da economia”, encararem os empresários e demais pessoas envolvidas em cada negócio como dotadas de inteligência e capazes de diluir impasses.

E se os partidos políticos (ou pelo menos alguns) agirem no sentido de seus filiados e simpatizantes, hoje eleitores-telespectadores bissextos, se tornarem cidadãos agentes de seus interesses comuns?
No século vinte, o fascismo, o socialismo, a democracia e por último o guevarismo conseguiram despertar essa “pulsão” para o protagonismo em milhões de jovens, de algumas gerações. Neste século, para o ocidente murcho de bandeiras e virtudes, é no mundo árabe islâmico que vemos manifestações de protagonismo que temos dificuldade para compreender.
Há pelo menos duas décadas, a sociedade brasileira vem se mostrando ávida de protagonismo, primeiramente na juventude, mas não apenas nela. Na criação musical, nas torcidas e — não se escandalize, pense! — até na delinqüência. Quanta iniciativa violenta está a mostrar-nos um potencial maior que todos os planos econômicos. É só saber canalizar a energia desperdiçada de milhões de protagonistas sufocados no ambiente escolar e fora dele. Que tal capitalizar essa energia na construção de um futuro sem moldes?
José Leão de Carvalho
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