Inovação é algo além do existente. E não levar esse fato em consideração anula qualquer esforço.

No dia 3 de outubro, o governo federal discutiu o Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação para o período 2007-2010, que prevê investimentos de 1,5% do PIB ao ano. Graças a um acréscimo de 25%, estima-se em R$ 40 bilhões o total de recursos a ser mobilizados para modernização, Plano de Desenvolvimento e Inovação e ampliação da base de capacidade (formação de recursos humanos, pesquisa básica e aplicada).

Sem amesquinhar os avanços e a proposta de integração prevista no Plano, cabe uma preocupação. Há o risco de o conceito Inovação ser o mesmo que é difundido pelas consultorias, pela mídia e pelos círculos de ciência e tecnologia. Tal risco, por ser altamente provável, justifica este artigo.

Se é conhecimento, é passado

Inovação é resultado de processos e atitudes no pensar. Embora essa afirmação seja aceita nos diversos círculos que se envolvem com inovação, a práxis tem se mostrado totalmente desconectada desse fato conhecido.

As propostas que pretendem desenvolver inovação investem apenas em máquinas e equipamentos, em conhecimentos, em aquisição de tecnologias, em títulos acadêmicos, ou seja, em insumos importantes mas já-existentes. Não se cogita do Ainda-Não.

Sequer se menciona os processos e atitudes da inteligência que acrescentam diferenças a esses insumos. Omite-se exatamente o que gera inovação. Mas esses insumos não fazem parte do conhecimento existente? Fizeram. Cada nova inovação exige que a inteligência se mobilize e se mova.

Para que a inteligência não se ajoelhe diante do conhecimento existente ou de uma tecnologia consagrada, é preciso que o sujeito pensante (individual ou coletivo) se permita processos mentais que abram outras possibilidades. Ao proceder assim, terá de lidar com atitudes mentais que possam estar frenando ou desmobilizando a intervenção transformadora.

Quem quer que tenha inovações de qualquer natureza em seu crédito, terá percebido que o "salto inovador" resultou de uma variante na trilha mental que então percorria. Há quem atribua essas variantes ao acaso, não importa agora. Na maioria dos casos, os repórteres e a comunidade profissional se encarregaram de alimentar-lhe a imagem de genialidade.

O que cabe destacar é o persistente desprezo aos fenômenos cognitivos que desenvolvem inovação em qualquer campo. O foco nas "materialidades visíveis" não constitui uma miopia exclusiva da cultura norte-americana.

A culpa é de Juno

Em nosso curso Básico, às vezes participam pessoas que logo se consideram habilitadas a "ensinar" idêntico conteúdo. Durante o curso gostaram de alguns exercícios e, com a melhor das intenções, querem "multiplicá-los". É compreensível que em seus cursos aquelas pessoas passem a oferecer supostas "ferramentas de criatividade e inovação". Não tiveram tempo ou serenidade autocrítica para perceber e beneficiar-se dos processos e atitudes que estavam dentro da "materialidade aparente" dos exercícios e atividades que assistiram.

Semelhantes derrapagens ocorrem com as propostas de inovação em nossa cultura. "Se investirmos em máquinas, patentes e ensino, obteremos inovação". Juno costumava aparecer em uma nuvem; para muitos, a nuvem passou a ser Juno.

O que podemos oferecer

Apelamos a quem tenha voz nos círculos de decisão e a quem seja bom em torcida e em reza forte, para que nos ajude a chamar a atenção para o invisível que não está sendo levado em conta no Plano de Desenvolvimento e Inovação. Mas não nos limitamos a torcer.

Este Instituto se propõe doar um estudo-base que agregue sua experiência no campo das ciências da cognição em que se especializou. Esse oferecimento é feito ao órgão que vá coordenar o Plano de Desenvolvimento e Inovação.

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