A América Latina, com especial destaque para o nosso País, vive um momento auspicioso mas, em algumas horas, sombreado por nuvens conhecidas. São exatamente as possibilidades e os começos de transformações que provocam reações crescentemente frenéticas nos setores que resistem a mudanças.
Dos fatos políticos enfocamos apenas o segmento em que nos especializamos: os processos e atitudes mentais que estão se revelando nos debates, mormente os do gênero mão-única.
A grande mídia, habituada a se apressar em servir aos interesses que lhe parecem dominantes, pauta-se por denegrir os fatos e atores que preconizam ou acenam com mudanças, por menores que estas sejam. E, obviamente, encontra fatos e factóides que lhe permitem manter um tom acusatório que é bem acolhido e multiplicado por mentes desprovidas de pensar crítico, mentes que em períodos de tensão constituem o "jogral político das classes médias".
As supostas elites, inseguras por inexperientes, por sua vez acreditam no que a mídia lhes acena como ameaças. E realimentam a corrente de não-pensar. Esse monótono moto-contínuo de pensar sem pontaria normalmente se agrava quando entram na roda preconceitos e outros delírios ideológicos.
A mídia vai perdendo a autocrítica. A necessidade de "manter o sucesso", a emocionalização dos personagens, os vieses dos profissionais, tudo é auto-excitação e descalabro crítico. Como sempre aconteceu, chega o momento em que os vilões escolhidos são arrastados para a fogueira.
Em toda essa novela, há atualmente uma força com a qual Goebbels não contava -- a internet. Os atuais profissionais da mídia parecem acreditar que a Rede é uma mera caixa de ressonância. Quem acredite não terá observado as mutações monstruosas com que ela potencializa qualquer patologia.
Destaquemos apenas dois desses "pendores vindos das trevas" que estão se revelando na internet - o ódio e a cizânia. Vimos colecionando mensagens e executáveis emitidos por pessoas e grupos que precisam de vilões. Começam fazendo ironias. Logo passam a fazer denúncias. Rapidamente surfam na pauta acusatória da mídia. E já não disfarçam seus impulsos. Por exemplo, o entusiasmo racista é tal que um de seus profetas propõe embarcar todos os negros e pardos que no Brasil se dizem afro-descendentes (ele tem ódio patriótico a essa expressão) e "descarregá-los" de volta na África.
Emitir julgamentos "morais" contra esses atos e seus protagonistas é resvalar em outra dimensão. As pessoas que expressam esses "pendores" podem ser dignas ou mesmo irrepreensíveis no seu cotidiano familiar e em outros palcos. Nos anos 20 e começo dos 30, Ernst Bloch fez uma espécie de diário das atitudes mentais do "homenzinho", como ele chamava a classe média alemã. Dessas anotações resultou "Erbschaft dieser Zeit" ("A Herança do Nosso Tempo"). Obra pioneira sobre o papel dos boatos, fofocas, insultos, distorções e acusações sem prova no "enriquecimento" do imaginário das classes médias em suas cruzadas "morais" contra as mudanças, culminando em uma trágica anestesia crítica. Pena que esse livro ainda não tenha sido editado em português.
Não há razão para pasmo nem espanto. Esses "pendores" estão e estavam aí mesmo. O momento é que os inflamou. O que vai acontecer com o evoluir do que foi gerado não é nosso território aqui.
A cizânia e o ódio orquestrados têm o talento de deprimir a todos. Mas dispomos de um escudo eficaz contra os pregadores de dedo-em-riste: entender o que a sociedade está de fato construindo, apesar de nossas dificuldades. Há muitas fontes de informações sobre essa realidade que não gera manchetes excitantes. Por exemplo, a revista Pesquisa da Fapesp. Essa publicação, cujo tratamento jornalístico a faz agradável ao leitor mediano, na edição de fevereiro reporta façanhas brasileiras em diversos campos: educação, meio ambiente, tecnologia, bioquímica e robótica. É entusiasmante a matéria sobre a Embrapa. Pesquisar o que está sendo feito é o melhor anti-tóxico para a nuvem entorpecente da cizânia.
As revistas de negócios poderiam cumprir um papel construtivo se não fossem os seus vieses de torcida irracional.
Não raciocinam estrategicamente. A esperança é que logo alguma divise a necessidade/oportunidade.
O BNDES, por sua vez, tarda a perceber que lhe cumpre também um papel educativo, que poderia ser realizado pela ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial). Bastaria que conseguisse despertar a iniciativa de uma pequena parcela daqueles empresários que não pensam empresarialmente, mas como bebês esganiçados. Há excelentes oportunidades para empresários que olhem para fora dos muros. Alguns já fizeram esse giro no pensar empresarial: deixaram de cantar "O Meu Mundo Caiu" e procuraram descobrir negócios no chão da realidade que temiam.
É o caso de mais uma vez repetir Leonardo Da Vinci: "É só pensar, e haverá asas!".
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