Analogia Cinematográfica

"Muitas vezes vi para onde deveria ir ao me encaminhar para outro rumo." - R. Buckminster Fuller

Tanto no entendimento erudito quanto no uso coloquial, pensamento é o produto da operação-pensar mediante a qual a inteligência atua sobre a realidade com o propósito de conhecê-la ou transformá-la. Adquirimos e ao mesmo tempo desenvolvemos esse recurso, tanto formalmente quanto por via da cultura em que vivemos. A maior parte do tempo, mesmo os mais “pensantes” entre nós, tratamos esse recurso pensar como um escravo serviçal. Por ser assim tratado, o Pensar vez por outra mostra-se indomado,  desobediente a nexos e, por isso mesmo, entende-se que deve ser mantido enjaulado. Libertamos, por via da comunicação, somente aqueles seus “produtos” que tendem a receber aprovação.

O pensar, porém, é processo. Mais precisamente uma multiplicidade de processos, que por ser algo vivo – o que temos de mais vivo –, não busca nexos nem consistência. E é com esse universo sempre inesperado que lidamos ao trabalhar com o processo criativo.

Segue-se uma breve resenha da compreensão científica desse oceano submerso e inesperado.

William James em 1890

Em 1890, William James lançava a noção de fluxo do pensamento. “The Stream of Thought” é o título do capítulo IX do seu “PRINCIPLES OF PSYCHOLOGY”.  Nesse seu “estudo da mente a partir de dentro”, James sustenta que para o sujeito da consciência esta parece ser sempre contínua, “sem quebra, fenda ou divisão”. 

O que ele enfatiza é a suavidade com que, em nossa consciência, transitamos de um pensamento para outro.  Daí sua noção do “fluxo de consciência”.  Mas já se perguntava se essa continuidade não seria aparente, “como resultado de uma ilusão análoga à do zootrópio”, um brinquedo da época que consistia em girar, em uma dada velocidade, imagens paradas ligeiramente diferentes uma da outra que, graças a essa rápida sucessão, aparentavam um imagem em movimento.

No entanto, é Henri Bergson (L’Évolution Créatrice, 1907.  Capítulo IV : “O Mecanismo Cinematográfico do Pensamento e a Ilusão Mecanicista”) quem primeiro irá enunciar a analogia cinematográfica:  “Podemos dizer que tiramos instantâneos da realidade passageira e, como estes são característicos da realidade, temos apenas que enfileirá-los em um devir abstrato, uniforme e invisível, situado ao fundo do aparato do conhecimento, de sorte a imitar o que há de característico nesse devir.  É o que acontece com percepção, intelecção e linguagem. Quando pensamos, expressamos ou mesmo percebemos esse devir, dificilmente fazemos algo diferente de colocá-lo em uma espécie de cinematógrafo dentro de nós. Podemos, pois, resumir que o mecanismo de nosso conhecimento ordinário é de tipo cinematográfico.”

A nosso ver, insere-se dentro dessa vertente a interpretação de F. C. Bartlett (Thinking: An Experimental and social study.  Londres: Allen and Unwin, 1932), um autor que enfatizava a tendência do pensar a ir além das provas visíveis, a dedicar-se ao que ele denominava como “preencher vazios”.  Ele identificava três tipos de processos de “preencher vazios”: 

  1. a interpolação, ou seja, a introdução de informação faltante dentro de uma seqüência lógica;
  2. a extrapolação — o alargamento de uma argumentação incompleta até levá-la a um termo;
  3. a reinterpretação, que consiste em uma mudança de perspectiva, ou seja, em dispor-se as provas de forma diferente para se alcançar uma nova interpretação.

Em resumo, Bartlett definia o pensar como “a extensão de uma evidência de acordo com ela mesma a fim de preencher os vazios que apresenta, e isto se consegue passando por uma sucessão de passos interconexos que podem ser enunciados no momento ou deixar para depois”.

Os empiro-associacionistas cultivaram a associação de idéias, que não por acaso veio a gerar o brainstorm. Não resta dúvida de que foi Alex Osborn quem, ao perceber os resultados práticos, tornou-se o grande difusor do “brainstorm” e contribuiu inclusive para seu aperfeiçoamento como ferramenta para ideação.  Mas Osborn já encontrou o protótipo bem trabalhado pelos associacionistas e de modo peculiar por Alfred North Whitehead, um matemático que virara filósofo e, como tal, tornou-se o anunciador do pensar-processo.

É digna de admiração a façanha empírica dos pioneiros norte-americanos que afluiu e desaguou no que hoje é conhecida como Metodologia do Processo Criativo. No curto prazo de duas décadas, aqueles empíricos geraram as principais ferramentas com que hoje se diversifica e alonga os processos do pensar. No entanto, é duvidoso que algum deles tivesse associado seus inventos e descobertas com os trabalhos teóricos de Locke, Hume e James, por exemplo.

O pensar-processo e a analogia cinematográfica

Nas últimas décadas vários neurocientistas, quando tratando do pensar-processo, não estranham a analogia cinematográfica. Mas parece-nos que nenhuma atividade explora tão bem as analogias técnicas e conceituais do cinema (zoom, dissolução, ruptura temporal, interpenetração, aproximação, confrontação, “fade-out”, etc.) como a metodologia de  expansão e “alongamento” dos processos do pensar.

A alternância das atitudes de divergência e convergência permite que aflorem “fotogramas” ou trechos de captações que não tiveram chance de ser projetados na consciência, os quais podem, em outro momento, ser colocados em outro ponto da correnteza, onde ganham oportunidade de alcançar nova coerência.

Inicialmente, recorria-se à alternância Divergência e Convergência exclusivamente para gerar ou descobrir opções na fase de ideação. Hoje, usamos esse recurso já desde a mais primária fase de interpretar a preocupação para enunciar o desafio. É um estratagema para libertar a inteligência de algum rumo prefixado. Ao mandar para o limbo as convicções, tornou mais fluente o pensar estratégico, mas não só este. E são muitas as técnicas para romper com o aparentemente normal, único ou fatal.

José Leão de Carvalho

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