Inovação. Como fazê-la no Brasil?

Inovação que inove.
Como obtê-la em nossa realidade.

José Leão de Carvalho

O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) acaba de fazer um estudo que compara as empresas industriais dotadas de uma política e um dispositivo de inovação com as que não contam com isso.

Esse não é um assunto "com os outros", mas de todos nós. Seja qual for nosso papel ou profissão, a qualidade do nosso futuro já está determinada pela "ideologia de inovação" que de fato começarmos a construir e praticar hoje. Por isso, convidamos você a refletir sobre o resumo que se segue.

Esse estudo procede de uma instituição respeitada como o IPEA, que não é dada a sensacionalismos. Sua leitura, se bem pensada, pode modificar a vida de muitas empresas e da própria economia.

As "espectadoras"

Não podemos desconsiderar aquelas empresas que, por inércia cultural, se acreditarão sem interesse no desafio. Seus dirigentes se apegarão à desculpa de produzir para o mercado interno. A estas temos proposto que examinem quem têm sido seus concorrentes nos últimos anos; e muitas têm confirmado a crescente presença de marcas internacionais. Outras têm constatado que os preços de certos insumos são determinados pelo mercado internacional.

É de esperar que muitas dessas empresas saiam da condição de "espectadoras". Quanto maior o número, melhor para elas e para o conjunto da economia. Mas o sucesso dependerá de como estarão pensando e agindo.

Os caminhos mais prováveis

Entre as empresas que adotarão algum dispositivo de inovação tecnológica, se considerarmos os hábitos e paradigmas vigentes, também podemos prever as opções mais prováveis:

Existirão as que vão apenas comprar patentes. O critério aí é o da aparente prudência, optar pelo que está dando certo. Afinal, dirão: para que inventar a roda? Mas é duvidoso que estejam inovando e, em termos de competitividade, dificilmente terão acrescido algo.

Com semelhante critério, mas mesclado com uma herança de pretensa esperteza, pode-se esperar que algumas invistam alegremente no verbo copiar. "Na natureza nada se cria, tudo se copia". Ficarão felizes com sua descrença em si mesmas e até poderão se queixar da pirataria... Melhor deixá-las em seu auto-contentamento.

Mas pode-se profetizar que algumas - torçamos que sejam muitas - irão montar equipes de tecnologia. A formação e a experiência são um bom critério, mas falta algo. Isto mesmo, a gestão.

Outra vez cabe lembrar os hábitos e paradigmas instalados. Predominarão as que vão nomear alguém de confiança para gerir o dispositivo. O critério não está errado, mas urge advertir que essa não é uma gestão como qualquer outra.

A gestão da inovação

Pelo que se pode descortinar na paisagem, incluindo aquelas empresas que já contam com dispositivos de inovação, poucas se ocupam com a gestão da inteligência. Mesmo o que se chama Gestão do Conhecimento, às vezes tem descurado da gestão da inteligência.

Gerir inovação tecnológica não pode cuidar apenas de tecnologia. Nem só de matérias-primas. Nem de máquinas e equipamentos. Nem de custos. Nem do mercado. Abrange tudo isso, mas antes vem o pensar. Por isso, a gestão da inteligência é o primeiro "ingrediente".

Conhecimento é necessário. Mas é preciso ampliá-lo, atualizá-lo, torná-lo uma "arma para surpresas". Vai ter que comprar saberes, mas o que justifica o investimento é também desenvolver novos. Se não criar seus próprios saberes, não haverá inovação.

Imitar ou espiar a concorrência também já não é suficiente. Agora, é preciso criar diferenças.

Mesmo empilhar o maior estoque de conhecimentos não significa que se chegou lá. É preciso ter dentro da empresa a qualidade de pensar (habilidades e atitudes) que transforma aqueles conhecimentos em surpresas, produtos, serviços e astúcias.

Ecologia para a inovação

A gestão do dispositivo precisará estar capacitada a criar, manter e desenvolver a ecologia - específica para a empresa - que propiciará a inovação.

Essa ecologia estará alerta para a "ideologia do dengo" e para a vassalagem ao sucesso passado. Exige dispor de um pensar que não se ilude com o que já sabe, já adquiriu ou já desenvolveu.

Um aprendizado permanente se dedicará a desenvolver inteligências perceptivas para o que está acontecendo e, principalmente, para antecipar-se.

E tal ecologia procurará espalhar-se por outros setores da empresa. Um dispositivo de inovação torna-se míope quando se encastela em si mesmo.

Como desenvolver

Nos últimos tempos temos destacado articulistas e conferencistas que trouxeram aportes ao conceito inovação. Por exemplo, Gary Hamel propõe a inovação sistêmica. "A sabedoria tradicional, que aconselha voltar aos fundamentos e reduzir custos, está com os dias contados. Os vencedores serão os inovadores que estão fazendo com que o pensar arrojado seja parte do dia-a-dia dos negócios."

Para desconsolo de quem se agarra à noção incrementalista, segundo a qual "inovação é só mudar um pouquinho aqui, cortar um pouquinho ali, agregar um pouquinho acolá", Gary Hamel propõe a "inovação mediante ruptura". Como essa, merecem atenção as contribuições de autores e especialistas estrangeiros. Entre os últimos, o alemão Horst Geschka que destacaremos noutra ocasião.

Queremos chamar a atenção, porém, é para dificuldades, oportunidades e necessidades existentes na cultura empresarial no Brasil, de que obviamente aqueles autores não tratam. Com um olhar antropológico, o leitor já identifica várias neste artigo. Se não forem levadas em conta algumas, não haverá gestão da inovação. Há outras, porém, que se não forem consideradas, não acontecerá sequer inovação.

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